sábado, 22 de setembro de 2012

O jornalismo que não temos


Procurei muito, e continuo a procurar em Portugal uma fonte de jornalismo que nos presente os factos, nos explique a sua relação e nos indique as suas  consequências.

E tudo isto de forma sucinta.

Missão impossível.

O acompanhamento das últimas duas semanas de política portuguesa são prova disso: li todos os jornais principais do país, mas não consegui encontrar nada que explicasse a situação de forma tão clara e instrutiva como este pequeno artigo.

sábado, 15 de setembro de 2012

Portugal e a Justiça

Passear-me em Portugal depois de viver bastantes anos fora é como ficar uma noite em casa dos pais depois de há muito vivermos na nossa: os nossos sentidos detectam pequenos pormenores bizarros que antes eram apenas normalidade.


Aterrei no Porto, e esperei pela minha boleia na rua em frente às chegadas. Havia um carro da polícia estacionado mesmo ao lado da porta do edifício, sinal de que os dois polícias que faziam a ronda não tentavam passar despercebidos. O seu objectivo era óbvio: evitar constrangimentos na zona de tomada de passageiros e bagagem.

Mesmo à minha frente parou um automóvel, e de dentro dele pularam duas crianças, que uma mãe tentava controlar. A senhora fez sinal ao polícia de que “era só por um minutinho”. O polícia respondeu com um olhar reprovador, apontando para o sinal que proibia claramente qualquer estacionamento para além do tempo de carregar gente e malas. A senhora pareceu compreender a ameaça da coima, e enviou as duas filhas sozinhas para dentro do aeroporto. A maior não devia ter mais de sete anos, e a mais nova uns quatro, pelo que não me surpreendeu o olhar aflito com que a mãe as viu afastar, enquanto guardava o carro.

Enquanto esperava, decidi estar de acordo com o seu sentimento: “ficamos sempre preocupados, não é?”. Ela respondeu que sim, que embora Portugal fosse um país seguro, ficávamos sempre receosos. Arrisquei dizer-lhe que histórias tristes acontecem até nos países mais seguros, mas fui logo calado com a acusação “já me está a assustar”. Despedi-me daquela conversa propondo à senhora ir pôr o carro no estacionamento para se juntar às filhas no aeroporto, mas ela respondeu-me que o marido tinha ligado a dizer que já tinha chegado e que deveria “estar mesmo a sair cá para fora”. A senhora deixou o carro onde estava e foi para dentro do terminal.

O polícia assistiu à cena por inteiro, mas ainda demorou dez minutos até se aproximar do carro. Deu três voltas ao veículo e conferiu os dísticos outras tantas vezes, olhando sempre para a porta do edifício, na esperança que a senhora aparecesse antes que sobre ele caísse a responsabilidade de tomar uma decisão. Foi neste momento que parou mesmo ao meu lado, e olhou para a papelada que trazia, para ganhar tempo. “O melhor é autuar, para que não volte a fazer o mesmo”, disse eu, correndo o risco de que o polícia se ofendesse porque eu lhe estava a dizer como é que deveria fazer o seu trabalho. Ele olhou muito sério para mim, e pensei que o risco se estava a tornar realidade. “Tem razão”, e começou a escrevinhar a multa.

Multa passada, o polícia foi rondar para a outra banda da rua. A minha boleia chegou exactamente no mesmo momento em que a senhora regressou ao carro. Ao ver o papelinho no vidro, ainda teve tempo de olhar para mim e encolher os ombros, como a constatar um desgosto que não poderia ter sido evitado.

Foi apenas um episódio isolado, mas não deixa de ser exemplo dalguns dos males do nosso país: não cumprimos as regras porque achamos que os da autoridade vão ser uns gajos porreiros e “dar um jeitinho”, os da autoridade ameaçam, mas não cumprem porque não querem deixar de ser gajos porreiros, e quando são quase forçados a aplicar a penalização, achamos que esta foi coisa que não poderíamos ter evitado, e que continuará a estar fora do nosso alcance evitar no futuro.

Mais que deficit, economia ou educação, a justiça e a sua aplicação são o que verdadeiramente corta as asas a este país!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Sorrir

O Guilherme já tem o seu primeiro dente. E já consegue morder (e aleijar) a mão da mãe que o alimenta!


Parece ter conhecer apenas duas expressões: sorrir e chorar. Sorri muito, de lábios bem abertos, entre os quais o seu novo dentre aparece como jóia valiosíssima numa vitrina de museu.

Espero que sorria assim sempre.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Pingo a pingo, enche o português a despensa


Hoje não vou tentar distribuir culpas e louros, porque por essa rede fora há já demasiados a fazerem-no (com ou sem razão; a maioria sem). Vou apenas referir alguns factos que ficaram inegavelmente comprovados neste Primeiro de Maio:

- Quem comprou, aproveitou para poupar umas massas. Umas massas valentes.

- O poder dos sindicatos para mover os trabalhadores tem limites. Um facto encorajador.

- O maior distribuidor de alimentos do país tem mais poder do que o que inicialmente pensávamos. Poder ao ponto de decidir como é que a maioria dos portugueses passa o dia feriado. Um facto preocupante.

- A indústria farmacêutica e a Associação Nacional de Farmácias mantêm o seu poder: o desconto não abrangeu fármacos (nem mesmo os genéricos), e ainda não foi desta que vimos uma verdadeira liberalização do sector. Um facto desmoralizante.

- Os 50% de desconto permitiram a muitas famílias abastecerem-se para várias semanas, sendo que já não terão de comprar em lojas de esquina. Más notícias para todos aqueles que tentam fazer por si próprios montando pequenos negócios, sem ter de viver à custa do Estado. Coisa para dar razão a todos os que não se esforçam para sair do aconchego do subsídio.

Em conclusão, este episódio foi um dos melhores testes de laboratório nos últimos anos para o governo: agora pode aprender imenso sobre como diminuir o poder dos sindicatos e liberalizar o mercado de trabalho, aperceber-se da vantagem dos pequenos negócios para a diminuição da carga sobre o Estado, e sobretudo concluir que em tempo de crise, os contribuintes privilegiam benefícios imediatos (como encher a despensa a metade do preço) em vez de lutar pelas medidas que demoram anos a dar proveito (como apoiar os sindicatos).

Se o governo actual quer verdadeiramente reformar Portugal, terá de complementar as promessas de um futuro melhor mas longínquo com vitórias que se sintam de imediato nos bolsos dos Portugueses. Se não o fizer, poderá ser (apenas mais) um governo que não cumpre o mandato até ao fim.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Sobre guardas prisionais alemãs

Oito meses depois, volto a fazer o caminho entre Frankfurt e o lar, mas desta vez o meio é diferente: permito-me o comboio. Da última vez saí à pressa, depois de ter recebido uma chamada da minha esposa às duas e meia da manhã: “é agora”!


Consultei a lista de voos, mas eram todos depois do nascer do sol. Calculei a rota de comboio mais rápida, mas o resultado nunca era antes da hora do almoço. Obviamente que a minha esposa podia chamar um táxi, mas quem é que tomaria conta do mais velho e dos seus tenros dezoito meses?

Descobri que podia alugar um carro àquela hora no aeroporto, e deixei o hotel de imediato. O funcionário da agência dormitava por detrás do balcão e assustou-se perante tamanha visão: um cliente àquela hora da noite.

As autoridades alemãs ajudaram, e a falta de limite de velocidade nas suas auto-estradas deu um jeitão a quem estava com pressa. Pelos vistos, havia quem ainda mais pressa tivesse, e pela primeira vez alguém pediu para me ultrapassar quando eu próprio já circulava a perto dos duzentos quilómetros horários! Provavelmente era alguém que esperava gémeos.

Vi estrada, estrada e mais estrada. Parei na fronteira para comprar a etiqueta suíça e voltei para mais estrada. O sol já ia alto quando cheguei a casa às oito e meia da manhã, carreguei mulher e filho e levei tudo para o hospital.

Fizeram testes, exames e controlos, durante mais de cinco horas, intercalados por inúmeros “espere ali um bocadinho na sala de espera”, e rematados por um “ainda não é hoje, volte cá amanhã”! Drogaram-me a esposa com dose de elefante e mandaram-me carregá-la para casa. Mercadoria entregue, ainda tive de ir trabalhar para acabar “umas coisinhas que não custam nada” e que o chefe queria a todo o custo.

No dia seguinte trouxe toda a família de volta ao hospital, e deixei o miúdo no mini infantário que o erário público põe à disposição de quem vai “só ali visitar um doente num instante” e não quer que a criançada apanhe vírus estranhos. A mulher enorme por detrás da porta parecia uma guarda prisional alemã, e sem sorrir disparou ordens para que eu preparasse o Gabriel, lhe tirasse os sapatos e o casaco, e mais isto e mais aquilo, frisando que sobretudo só podia deixar ali o garoto duas horas “e nem mais um minuto”! Os olhitos do Gabriel gritavam medo quando a responsável fechou a porta e nos mandou à nossa vida.

Acompanhei a minha esposa até à sala de cirurgia, assisti ao parto e vesti o meu novo filho. Deixei mãe e rebento a descansar, e corri para que a guarda prisional não me pusesse o mais velho na rua. Não só não o tinha expulsado, como ainda tive de negociar para que me devolvesse a criança: em menos de duas horas tinha-se enamorado do rapaz de tal forma que o enchia de beijos, enquanto dizia que o podia voltar a trazer sempre que quisesse.

Como já não conduzia há muito tempo, acelerei direito ao aeroporto para ir buscar a sogra que vinha ajudar a filha. Deixei avó e neto em casa, e para não deixar a ferrovia ciumenta, apanhei o comboio até ao outro lado da Suíça, e regressei num carro maior, agora que a família já não cabia num Mini.

Por fim, regressei a Frankfurt para acabar o serviço que tinha ficado por fazer.

Oito meses depois, volto a fazer o caminho entre Frankfurt e o lar, mas desta vez a emoção é diferente: troco a excitação do nascimento pela ânsia de estar de novo com os meus filhos!

terça-feira, 1 de maio de 2012

Maomé, a montanha e a condição humana

Há muitos meses descrevi como o Gabriel, sentado em cima da mesa, puxou a toalha para que algo viesse até si, sem ter de se deslocar. O Guilherme é diferente: hoje, na mesma posição, enfrentou a longa caminhada até ao extremo da mesa. A mesa era mais curta desta vez. Será inteligência menor ou apenas a eterna condição humana que define que as grandes descobertas apenas acontecem quando somos sujeitos a condições extremas?

quinta-feira, 29 de março de 2012

Morde a mão e alimenta-te

Falam de greves e de agressões. Violência na rua e mais violência nas acusações de parte a parte. Argumentos e desculpas abundam por toda a parte. Deste lado ficamos confusos, e já não sabemos quem é que tem razão.

Portugal está em recessão, e o desemprego sobe. Quem já tinha rendimentos diminutos vê-se ainda mais aflito ainda o mês vai a meio. O país volta a emigrar em massa, com ou sem canudo.

A culpa será certamente dos políticos: são quem nos governa. Os bancos também são responsáveis, tanto dinheiro que colocaram em investimentos duvidosos. Há que cobrar aos ricos os custos da crise: se estão ricos, é porque também a ajudaram a criar. Não há emprego em Portugal porque as grandes multinacionais matam o pequeno comércio e depois importam tudo da China. E os alemães são imperialistas porque querem vir mandar no que é nosso. A Igreja Católica tem saído ilesa de responsabilidades. Por enquanto...

Passo e repasso acusações e acusados, e tento desenhar uma cronologia lógica para tamanha tragédia. Chego a uma conclusão, que por ser inacreditável, desfaço. Volto a alinhar factos e argumentos, e chego ao mesmo fim, ainda estupefacto. Viro tudo do avesso, à procura de outro desfecho, mas chego sempre ao mesmo: os portugueses revoltam-se contra quem lhes faz a vontade.

Pedimos auto-estradas gratuitas, e o governo deu. Exigimos ensino superior para todos, e as universidades reduziram ao mínimo a exigência para atribuir um grau académico. Concluímos que era melhor ser proprietário, e os bancos financiaram. Sonhámos com estádios de luxo, e as Câmaras pagaram. Fomos alugando apartamentos por menos de 30 euros, por vezes sem pagar, e os ricos aceitaram. Queixámo-nos de que o vizinho tinha um carro melhor, e os bancos voltaram a financiar. Pedimos preços mais baixos, e as grandes multinacionais ofereceram. E tanto ofereceram, que nos esquecemos que tínhamos de comprar também no modesto comércio tradicional para que este não morresse; excepção feita às lojas chinesas, que vendem bugigangas do outro lado do mundo, mas que como são tão baratas, valem sempre a pena. Contámos com que os alemães pagassem tudo isto durante um quarto de século, e eles pagaram.

Muitos milagres pedimos a Nossa Senhora, mas não tenho conhecimento de que tenha distribuído assim tantos. Talvez seja por isso que agora não nos manifestemos em frente das igrejas.