Passear-me em Portugal depois de viver bastantes anos fora é como ficar uma noite em casa dos pais depois de há muito vivermos na nossa: os nossos sentidos detectam pequenos pormenores bizarros que antes eram apenas normalidade.
Aterrei no Porto, e esperei pela minha boleia na rua em frente às chegadas. Havia um carro da polícia estacionado mesmo ao lado da porta do edifício, sinal de que os dois polícias que faziam a ronda não tentavam passar despercebidos. O seu objectivo era óbvio: evitar constrangimentos na zona de tomada de passageiros e bagagem.
Mesmo à minha frente parou um automóvel, e de dentro dele pularam duas crianças, que uma mãe tentava controlar. A senhora fez sinal ao polícia de que “era só por um minutinho”. O polícia respondeu com um olhar reprovador, apontando para o sinal que proibia claramente qualquer estacionamento para além do tempo de carregar gente e malas. A senhora pareceu compreender a ameaça da coima, e enviou as duas filhas sozinhas para dentro do aeroporto. A maior não devia ter mais de sete anos, e a mais nova uns quatro, pelo que não me surpreendeu o olhar aflito com que a mãe as viu afastar, enquanto guardava o carro.
Enquanto esperava, decidi estar de acordo com o seu sentimento: “ficamos sempre preocupados, não é?”. Ela respondeu que sim, que embora Portugal fosse um país seguro, ficávamos sempre receosos. Arrisquei dizer-lhe que histórias tristes acontecem até nos países mais seguros, mas fui logo calado com a acusação “já me está a assustar”. Despedi-me daquela conversa propondo à senhora ir pôr o carro no estacionamento para se juntar às filhas no aeroporto, mas ela respondeu-me que o marido tinha ligado a dizer que já tinha chegado e que deveria “estar mesmo a sair cá para fora”. A senhora deixou o carro onde estava e foi para dentro do terminal.
O polícia assistiu à cena por inteiro, mas ainda demorou dez minutos até se aproximar do carro. Deu três voltas ao veículo e conferiu os dísticos outras tantas vezes, olhando sempre para a porta do edifício, na esperança que a senhora aparecesse antes que sobre ele caísse a responsabilidade de tomar uma decisão. Foi neste momento que parou mesmo ao meu lado, e olhou para a papelada que trazia, para ganhar tempo. “O melhor é autuar, para que não volte a fazer o mesmo”, disse eu, correndo o risco de que o polícia se ofendesse porque eu lhe estava a dizer como é que deveria fazer o seu trabalho. Ele olhou muito sério para mim, e pensei que o risco se estava a tornar realidade. “Tem razão”, e começou a escrevinhar a multa.
Multa passada, o polícia foi rondar para a outra banda da rua. A minha boleia chegou exactamente no mesmo momento em que a senhora regressou ao carro. Ao ver o papelinho no vidro, ainda teve tempo de olhar para mim e encolher os ombros, como a constatar um desgosto que não poderia ter sido evitado.
Foi apenas um episódio isolado, mas não deixa de ser exemplo dalguns dos males do nosso país: não cumprimos as regras porque achamos que os da autoridade vão ser uns gajos porreiros e “dar um jeitinho”, os da autoridade ameaçam, mas não cumprem porque não querem deixar de ser gajos porreiros, e quando são quase forçados a aplicar a penalização, achamos que esta foi coisa que não poderíamos ter evitado, e que continuará a estar fora do nosso alcance evitar no futuro.
Mais que deficit, economia ou educação, a justiça e a sua aplicação são o que verdadeiramente corta as asas a este país!
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