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sábado, 8 de outubro de 2011

O erro

O Carlos escreveu que viajar sozinho apura os sentidos. Procurei de novo a citação dele no “facebook”, mas depois de páginas e páginas de escritos, desisti. Não sei se foi assim palavra por palavra, mas acho que a ideia era essa. Se foi, o Carlos tem razão.

Quando viajamos sozinhos falamos menos, ouvimos mais. Não necessitamos de nos concentrar em conversas muitas vezes fora de lugar, e damos mais atenção ao que nos rodeia.

A sós, os sentidos descobrem novas realidades e emoções, mas cresce sempre em mim a frustração de não poder partilhar de imediato o que sinto, e isso entristece-me.

Tentei resolver o conflito durante anos e anos de viagens, mas a única coisa que consegui foi aumentar o meu desespero, ao ponto de me deprimir em qualquer viagem, só ou acompanhado, aqui perto ou do outro lado do mundo.

Até que a Indira me convidou para ir dar um passeio lá pelo bairro. A sua sensibilidade era tão diferente da minha que me fez redescobrir aquele percurso tão conhecido. Mais do que diferente, era complementaria: ambos sentimos mais, e ao mesmo tempo partilhávamos. Acho que essa foi uma das razões pelas quais nos casámos.

Hoje quando sou forçado a viajar sozinho sinto uma frustração maior do que as anteriores: a de voltar a cometer um erro, conhecendo a solução correcta.

sábado, 27 de novembro de 2010

Essa que muda tudo

“Só nos faltava mais essa”
Reacção de Oliveira Salazar quando lhe foi comunicada a descoberta de petróleo em Cabinda.

Depois dos anos de guerra na Costa do Marfim, Accra passou a ser o centro da civilização na África Subsariana Ocidental. É uma capital simples de um país sem riquezas naturais que perturbem a paz. E mesmo com a promoção, continua a ser uma cidade completamente africana: há apenas um hotel de alta gama e são muito poucas as áreas ricas para expatriados. Mesmo o bar mais frequentado pela comunidade branca é um reviver do elo entre esta costa africana e a Jamaica: o palco de música ao vivo é coroado por uma imagem gigante de um reggae man.

A noite passa-se em pequenos bares improvisados à beira da estrada, telhados inacabados suportados por pilares em ferro ferrugento. Ao olhar pelo aspecto de subúrbio pobre, prevemos a agressividade típica dos guetos, mas ao atravessar as mesas em direcção ao balcão, sentimos pelo contrário a descontracção de uma gente que não parece rancorosa com ninguém.

O oposto dos vizinhos de Lagos, cuja única real diferença é terem demasiado petróleo.

domingo, 24 de outubro de 2010

Sobre o Cairo

O céu do Cairo é uma camada espessa de fumo, areia e neblina, que torna as sombras suaves e a luz dolorosa. É como se a presença dominadora de Alá se fizesse sentir permanentemente. Por entre os edifícios semi-construídos a mistura pestilenta de odores sufoca-nos e o ruído constante do tráfico agita-nos, até que o chamamento para a oração do pôr-do-sol dá à cidade um momento de descanso. À noite o vento do Nilo purifica o ar e as gentes do Cairo reúnem-se nas suas margens, como em veneração a esta fonte de vida que assegura a sobrevivência da cidade.

Ao caminhar pelas ruas cruzo-me com pré-adolescentes, crianças ainda, que cochicham entre elas, divertidas com o meu ar, que acham exótico. Sorriem-me ao passar de uma forma ligeiramente provocante, que contrasta com o aparente conservadorismo dos lenços que lhes cobrem o cabelo.

Fico com vontade de ficar mais tempo para descobrir outros contrastes desta sociedade islâmica, e de ter a meu lado a minha companheira de aventura. É a certeza de que voltarei a esta cidade com a mulher que escolhi.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Dia 6: Montgó – Rivaz (861 km)

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Com o Gabriel, não há outra hipótese senão acordar cedo. Muito cedo. Mas para compensar, sai-se do hotel tarde, muito tarde. Ainda assim, quisemos fazer nova paragem em Cadaquez para comer uma dourada grelhada e uma favada.

O resto foi estrada, auto-estrada, pontes, portagens, passagens de nível, buracos e estações de serviço. Sobretudo isso, estações de serviço: depois desta viagem com o Gabriel, seremos seguramente os maiores especialistas neste tipo de estabelecimentos no sul de França!
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Dia 5: Montgó – L'Estartit – Montgó (20 kms)

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Como devem ter reparado, a cada dia fazemos menos quilómetros. Por um lado, há que guardar vontade de conduzir para o regresso, mas sobretudo o facto de ficar no mesmo hotel reduz consideravelmente os afazeres matinais.

O Gabriel chorou e berrou, mas também se acalmou ao ver o mar. E enquanto nos deu uns minutos de tréguas, deliciámo-nos com uns “sonsos” (enguias em Catalão) e anchovas em L'Estartit. Delicioso!
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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Dia 4: Figueres – Montgó (32 kms)

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Era o auge da viagem, a terra prometida: mostrar à Indi o Museu-Teatro Dali.

Depois de extensos e demorados preparativos no hotel, saímos de Gabriel amarrado ao peito em direcção ao museu. Feliz ideia a da Indi de trazer o Gabriel feito canguru, porque não permitiam carrinhos de bebé la dentro.

Durante a primeira hora e meia, o Gabriel esteve tranquilo, indiferente aos magotes de visitantes de fim-de-semana de Páscoa: autocarros dos reformados de Idanha-a-Nova, grupos de adolescentes irritantes das escolas francesas da fronteira, mães histéricas e filhos birrentos.

Vimos as obras iniciais de Dali, alguns dos seus quatros mais famosos e rabiscos preparativos de obras inacabadas. A sala Mae West estava apinhada, não fosse uma das supostas grandes atracões: sobem-se umas escadinhas para ver desde um palanque o alinhamento das várias peças que lá de cima reconhecemos como formando a cara de uma cachopa. A fila para as escadas era longa, e os que não cabiam na fila enchiam o resto dos cantos da sala. No instante em que entrámos, o Gabriel começou num longo pranto e não havia “gugu-dadá” ou embalo que o calasse. Ante um momento de urgência destes, a Indi abriu a sua bolsa mágica de super-mãe e de lá sacou o biberão salvador, que calou o Gabriel naquele instante. Qual comprimido maravilha, o biberão apresentou também os seus efeitos secundários, e depois de uns ruídos suspeitos na barriga do Gabriel, tivemos de correr em busca do muda fraldas do museu.

O que seria uma manobra de rotina, transformou-se no cabo dos trabalhos à conta do poder do efeito secundário do biberão: tal foi a força com que fez sair o que lá havia, que aquilo deu a volta, saiu da fralda e intrometeu-se debaixo da roupa do pobre miúdo, nos cantos mais recônditos do corpo. Para completar o cenário, o arquitecto do museu decidiu pôr o muda fraldas à entrada das casas de banho, sem qualquer porta que filtrasse ruído, cheiros ou efeito visual para o resto do museu. Resultado: espectáculo de primeira para todo o museu!

Tivemos de desenvolver um trabalho de equipa digno dos melhores cirurgiões: dá-me uma toalhita, a fralda, outra toalhita, a roupa, levanta daqui, conserta dali, outra toalhita, limpa-lhe a baba… Ao fim de quinze minutos conseguimos controlar a situação.

Ainda assim, o Gabriel não se calava. Caminhamos devagarinho em direcção à saída, esperançados de que se acalmasse e não tivéssemos de perder os 22 euros que tínhamos pagado pelo bilhete de entrada. Parámos uma e outra vez antes da última porta, mas o Gabriel não se calava.

Assim que passamos a porta da saída definitiva, o Gabriel deixou de chorar. Acho que não gosta de bigodes.
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Dia 3: Cadaqués – Figueres (68 kms)

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Comprei uma máquina para aquecer biberões!
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domingo, 4 de abril de 2010

Dia 2: Montpellier – Cadaqués (292 kms)

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“Olha, já acordou. Não, espera, calou-se outra vez. Não lhe mexas. Agora sim, já está bem acordado. Prepara-lhe o biberão enquanto lhe dou o que houver de peito”.

Veste-se a primeira coisa que vier à mão, porque não há tempo para tomar banho, e vai-se ao carro buscar a garrafa de água sagrada “que é só do Gabriel, ouviste?”.

Volta-se ao quarto e lavam-se um por um todos os seis biberões sujos do dia anterior. “Bem lavados, ouviste? E não deixes detergente lá dentro!” Há que depois colocá-los segundo ordem própria na caixa esterilizadora e enchê-la com “exactamente 200 mililitros, ouviste?”.

Descem-se de novo as escadas para pedir se por favor aquecem a caixa no microondas, “a 800 watts e durante seis minutos, ouviste?”. Recomendo esquecer o remate final “ouviste” quando se fizer o pedido à senhora da recepção.

Seis minutos volvidos, agarra-se a caixa e depois chupam-se as pontas dos dedos um a um porque a caixa estava a escaldar. Devagarinho, abre-se a caixa e com a pinça de plástico (“não toques nas outras peças com as mãos, ouviste?”) e constrói-se o biberão. Assemblagem feita, juntam-se “cem mililitros de água, ouviste?” e com toda a gentileza, pede-se de novo à santa senhora da recepção que aqueça o biberão no microondas, desta feita “apenas quinze segundos, ouviste?”.

Agarra-se a tralha toda, sobem-se as escadas e deitam-se três medidas (“só três, ouviste?”) de leite em pó e agita-se bem. “Toma lá o Gabriel e dá-lhe o biberão enquanto eu tomo banho. Agarra-o assim. Cuidado com a cabeça. Inclina mais o biberão para que não entre ar. E não faças movimentos bruscos porque senão ele vomita, ouviste?”. E assim se fica imóvel como estátua durante quinze minutos.

Leite tomado, arroto dado e leite vomitado, há agora um desconto de tempo de cinco minutos para tomar banho e vestirmo-nos. Depois há que arrumar a tralha toda: “o leite vai na mala de mão e os biberões no saco. Todos, não, põe um na mala de mão. E enche-o com cem mililitros e vai lá em baixo pedir que o aqueçam. Durante três minutos, ouviste? Para ficar quente para o caminho”.

Escadas acima de novo, e agarramos a tralha toda: saco do Gabriel num braço, a nossa mala no outro, a mala de mão à volta do pescoço, carrinho arrastar numa mão e caixa de esterilização em equilíbrio precário na outra. Enchouriça-se aquilo tudo dentro do Mini e sentamo-nos em cima da mala para a fechar.

Como já tínhamos saudades do vão de escadas, passamos por lá outra vez para ir ver se não nos esquecemos de nada no quarto, fechar a porta e trazer a chave, “ouviste?”.

Sentamo-nos por fim à mesa do pequeno-almoço, com o sentimento de cansaço de todo um dia de trabalho, a tentar desfrutar de um minuto de paz, interrompido pela conclusão da esposa: “não me ajudas em nada, tenho de fazer tudo sozinha!”.
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quarta-feira, 31 de março de 2010

Dia 1: Rivaz – Montpellier (556 kms)

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Dormiu até ao engarrafamento. Perante o trânsito completamente parado, berrava a plenos pulmões. Perfeitamente compreensível: quem me dera poder gritar a uma fila daquelas! Ao fim de dez minutos completamente parados, e já com os ouvidos doloridos, a mãe, engenhosa como sempre, decidiu tomá-lo em braços e dar-lhe peito. Dez segundos depois de se calar, o carro da frente começou a avançar e tivemos de fazer um movimento digno dos mundiais de ginástica para regressar a larva ao seu casulo. A meio da manobra devo ter feito uma leve pressão na sua barriga, e o que lá andava lá por dentro veio todo cá para fora sob forma de leite semi-processado!

Paragem forçada na estação de serviço, que quase nos fez chegar demasiado tarde ao hotel. Pedimos a chave do quarto 30 segundos antes de perdermos a reserva completamente!

Primeiro dia ultrapassado. Vejamos a noite…
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Cinco dias na estrada com o miúdo-larva

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A Páscoa traz-nos a possibilidade de cinco dias livres, e depois de seis semanas de cativeiro, não resistimos a pôr o miúdo no carro e fazer-nos à estrada. Às suas seis semanas de idade, move-se ainda descoordenadamente como uma larva dentro do saco que a mãe lhe vestiu à laia de roupa. Resistiremos a cinco dias de estrada com ele?
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