Falam de greves e de agressões. Violência na rua e mais violência nas acusações de parte a parte. Argumentos e desculpas abundam por toda a parte. Deste lado ficamos confusos, e já não sabemos quem é que tem razão.
Portugal está em recessão, e o desemprego sobe. Quem já tinha rendimentos diminutos vê-se ainda mais aflito ainda o mês vai a meio. O país volta a emigrar em massa, com ou sem canudo.
A culpa será certamente dos políticos: são quem nos governa. Os bancos também são responsáveis, tanto dinheiro que colocaram em investimentos duvidosos. Há que cobrar aos ricos os custos da crise: se estão ricos, é porque também a ajudaram a criar. Não há emprego em Portugal porque as grandes multinacionais matam o pequeno comércio e depois importam tudo da China. E os alemães são imperialistas porque querem vir mandar no que é nosso. A Igreja Católica tem saído ilesa de responsabilidades. Por enquanto...
Passo e repasso acusações e acusados, e tento desenhar uma cronologia lógica para tamanha tragédia. Chego a uma conclusão, que por ser inacreditável, desfaço. Volto a alinhar factos e argumentos, e chego ao mesmo fim, ainda estupefacto. Viro tudo do avesso, à procura de outro desfecho, mas chego sempre ao mesmo: os portugueses revoltam-se contra quem lhes faz a vontade.
Pedimos auto-estradas gratuitas, e o governo deu. Exigimos ensino superior para todos, e as universidades reduziram ao mínimo a exigência para atribuir um grau académico. Concluímos que era melhor ser proprietário, e os bancos financiaram. Sonhámos com estádios de luxo, e as Câmaras pagaram. Fomos alugando apartamentos por menos de 30 euros, por vezes sem pagar, e os ricos aceitaram. Queixámo-nos de que o vizinho tinha um carro melhor, e os bancos voltaram a financiar. Pedimos preços mais baixos, e as grandes multinacionais ofereceram. E tanto ofereceram, que nos esquecemos que tínhamos de comprar também no modesto comércio tradicional para que este não morresse; excepção feita às lojas chinesas, que vendem bugigangas do outro lado do mundo, mas que como são tão baratas, valem sempre a pena. Contámos com que os alemães pagassem tudo isto durante um quarto de século, e eles pagaram.
Muitos milagres pedimos a Nossa Senhora, mas não tenho conhecimento de que tenha distribuído assim tantos. Talvez seja por isso que agora não nos manifestemos em frente das igrejas.
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