quarta-feira, 2 de maio de 2012

Sobre guardas prisionais alemãs

Oito meses depois, volto a fazer o caminho entre Frankfurt e o lar, mas desta vez o meio é diferente: permito-me o comboio. Da última vez saí à pressa, depois de ter recebido uma chamada da minha esposa às duas e meia da manhã: “é agora”!


Consultei a lista de voos, mas eram todos depois do nascer do sol. Calculei a rota de comboio mais rápida, mas o resultado nunca era antes da hora do almoço. Obviamente que a minha esposa podia chamar um táxi, mas quem é que tomaria conta do mais velho e dos seus tenros dezoito meses?

Descobri que podia alugar um carro àquela hora no aeroporto, e deixei o hotel de imediato. O funcionário da agência dormitava por detrás do balcão e assustou-se perante tamanha visão: um cliente àquela hora da noite.

As autoridades alemãs ajudaram, e a falta de limite de velocidade nas suas auto-estradas deu um jeitão a quem estava com pressa. Pelos vistos, havia quem ainda mais pressa tivesse, e pela primeira vez alguém pediu para me ultrapassar quando eu próprio já circulava a perto dos duzentos quilómetros horários! Provavelmente era alguém que esperava gémeos.

Vi estrada, estrada e mais estrada. Parei na fronteira para comprar a etiqueta suíça e voltei para mais estrada. O sol já ia alto quando cheguei a casa às oito e meia da manhã, carreguei mulher e filho e levei tudo para o hospital.

Fizeram testes, exames e controlos, durante mais de cinco horas, intercalados por inúmeros “espere ali um bocadinho na sala de espera”, e rematados por um “ainda não é hoje, volte cá amanhã”! Drogaram-me a esposa com dose de elefante e mandaram-me carregá-la para casa. Mercadoria entregue, ainda tive de ir trabalhar para acabar “umas coisinhas que não custam nada” e que o chefe queria a todo o custo.

No dia seguinte trouxe toda a família de volta ao hospital, e deixei o miúdo no mini infantário que o erário público põe à disposição de quem vai “só ali visitar um doente num instante” e não quer que a criançada apanhe vírus estranhos. A mulher enorme por detrás da porta parecia uma guarda prisional alemã, e sem sorrir disparou ordens para que eu preparasse o Gabriel, lhe tirasse os sapatos e o casaco, e mais isto e mais aquilo, frisando que sobretudo só podia deixar ali o garoto duas horas “e nem mais um minuto”! Os olhitos do Gabriel gritavam medo quando a responsável fechou a porta e nos mandou à nossa vida.

Acompanhei a minha esposa até à sala de cirurgia, assisti ao parto e vesti o meu novo filho. Deixei mãe e rebento a descansar, e corri para que a guarda prisional não me pusesse o mais velho na rua. Não só não o tinha expulsado, como ainda tive de negociar para que me devolvesse a criança: em menos de duas horas tinha-se enamorado do rapaz de tal forma que o enchia de beijos, enquanto dizia que o podia voltar a trazer sempre que quisesse.

Como já não conduzia há muito tempo, acelerei direito ao aeroporto para ir buscar a sogra que vinha ajudar a filha. Deixei avó e neto em casa, e para não deixar a ferrovia ciumenta, apanhei o comboio até ao outro lado da Suíça, e regressei num carro maior, agora que a família já não cabia num Mini.

Por fim, regressei a Frankfurt para acabar o serviço que tinha ficado por fazer.

Oito meses depois, volto a fazer o caminho entre Frankfurt e o lar, mas desta vez a emoção é diferente: troco a excitação do nascimento pela ânsia de estar de novo com os meus filhos!

Sem comentários:

Enviar um comentário