quinta-feira, 3 de maio de 2012

Pingo a pingo, enche o português a despensa


Hoje não vou tentar distribuir culpas e louros, porque por essa rede fora há já demasiados a fazerem-no (com ou sem razão; a maioria sem). Vou apenas referir alguns factos que ficaram inegavelmente comprovados neste Primeiro de Maio:

- Quem comprou, aproveitou para poupar umas massas. Umas massas valentes.

- O poder dos sindicatos para mover os trabalhadores tem limites. Um facto encorajador.

- O maior distribuidor de alimentos do país tem mais poder do que o que inicialmente pensávamos. Poder ao ponto de decidir como é que a maioria dos portugueses passa o dia feriado. Um facto preocupante.

- A indústria farmacêutica e a Associação Nacional de Farmácias mantêm o seu poder: o desconto não abrangeu fármacos (nem mesmo os genéricos), e ainda não foi desta que vimos uma verdadeira liberalização do sector. Um facto desmoralizante.

- Os 50% de desconto permitiram a muitas famílias abastecerem-se para várias semanas, sendo que já não terão de comprar em lojas de esquina. Más notícias para todos aqueles que tentam fazer por si próprios montando pequenos negócios, sem ter de viver à custa do Estado. Coisa para dar razão a todos os que não se esforçam para sair do aconchego do subsídio.

Em conclusão, este episódio foi um dos melhores testes de laboratório nos últimos anos para o governo: agora pode aprender imenso sobre como diminuir o poder dos sindicatos e liberalizar o mercado de trabalho, aperceber-se da vantagem dos pequenos negócios para a diminuição da carga sobre o Estado, e sobretudo concluir que em tempo de crise, os contribuintes privilegiam benefícios imediatos (como encher a despensa a metade do preço) em vez de lutar pelas medidas que demoram anos a dar proveito (como apoiar os sindicatos).

Se o governo actual quer verdadeiramente reformar Portugal, terá de complementar as promessas de um futuro melhor mas longínquo com vitórias que se sintam de imediato nos bolsos dos Portugueses. Se não o fizer, poderá ser (apenas mais) um governo que não cumpre o mandato até ao fim.

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