domingo, 4 de abril de 2010

Dia 2: Montpellier – Cadaqués (292 kms)

.
“Olha, já acordou. Não, espera, calou-se outra vez. Não lhe mexas. Agora sim, já está bem acordado. Prepara-lhe o biberão enquanto lhe dou o que houver de peito”.

Veste-se a primeira coisa que vier à mão, porque não há tempo para tomar banho, e vai-se ao carro buscar a garrafa de água sagrada “que é só do Gabriel, ouviste?”.

Volta-se ao quarto e lavam-se um por um todos os seis biberões sujos do dia anterior. “Bem lavados, ouviste? E não deixes detergente lá dentro!” Há que depois colocá-los segundo ordem própria na caixa esterilizadora e enchê-la com “exactamente 200 mililitros, ouviste?”.

Descem-se de novo as escadas para pedir se por favor aquecem a caixa no microondas, “a 800 watts e durante seis minutos, ouviste?”. Recomendo esquecer o remate final “ouviste” quando se fizer o pedido à senhora da recepção.

Seis minutos volvidos, agarra-se a caixa e depois chupam-se as pontas dos dedos um a um porque a caixa estava a escaldar. Devagarinho, abre-se a caixa e com a pinça de plástico (“não toques nas outras peças com as mãos, ouviste?”) e constrói-se o biberão. Assemblagem feita, juntam-se “cem mililitros de água, ouviste?” e com toda a gentileza, pede-se de novo à santa senhora da recepção que aqueça o biberão no microondas, desta feita “apenas quinze segundos, ouviste?”.

Agarra-se a tralha toda, sobem-se as escadas e deitam-se três medidas (“só três, ouviste?”) de leite em pó e agita-se bem. “Toma lá o Gabriel e dá-lhe o biberão enquanto eu tomo banho. Agarra-o assim. Cuidado com a cabeça. Inclina mais o biberão para que não entre ar. E não faças movimentos bruscos porque senão ele vomita, ouviste?”. E assim se fica imóvel como estátua durante quinze minutos.

Leite tomado, arroto dado e leite vomitado, há agora um desconto de tempo de cinco minutos para tomar banho e vestirmo-nos. Depois há que arrumar a tralha toda: “o leite vai na mala de mão e os biberões no saco. Todos, não, põe um na mala de mão. E enche-o com cem mililitros e vai lá em baixo pedir que o aqueçam. Durante três minutos, ouviste? Para ficar quente para o caminho”.

Escadas acima de novo, e agarramos a tralha toda: saco do Gabriel num braço, a nossa mala no outro, a mala de mão à volta do pescoço, carrinho arrastar numa mão e caixa de esterilização em equilíbrio precário na outra. Enchouriça-se aquilo tudo dentro do Mini e sentamo-nos em cima da mala para a fechar.

Como já tínhamos saudades do vão de escadas, passamos por lá outra vez para ir ver se não nos esquecemos de nada no quarto, fechar a porta e trazer a chave, “ouviste?”.

Sentamo-nos por fim à mesa do pequeno-almoço, com o sentimento de cansaço de todo um dia de trabalho, a tentar desfrutar de um minuto de paz, interrompido pela conclusão da esposa: “não me ajudas em nada, tenho de fazer tudo sozinha!”.
.

Sem comentários:

Enviar um comentário