Daqui a dois meses o Gabriel cumprirá dois anos. O seu vocabulário reduz-se a “papá”, “mamã” e “água”, enquanto que outras crianças da mesma idade dominam já toda a linguagem do dia-a-dia. Seguindo este parâmetro, poder-se-ia concluir que o Gabriel está a ter um desenvolvimento intelectual tardio.
Ontem o Guilherme, irmão de três meses, chorava de tal forma que a mãe foi buscá-lo ao quarto dele. Quando bebé e mãe entraram na sala, o Gabriel esticou-se o mais que pode para agarrar o pé do irmão e arrastar mãe e cria na minha direcção. Apontava incessantemente para mim, duma forma que entendemos como se quisesse que eu agarrasse o Guilherme. Coisa estranha, o Gabriel nunca tinha feito um pedido tal. E porque é que se interessava agora sobre se era eu ou a mãe a agarrarem o mais pequeno? Já que o Gabriel insistia, e também para ajudar a minha esposa, agarrei o Guilherme e deixei que ela se sentasse à mesa mais descansada.
As peças do xadrez psicológico do Gabriel estavam por fim dispostas na perfeição, e ele retomou o seu lugar no trono real, subindo para o colo da sua mãe, que não tendo ninguém nos braços, ficou sem desculpas para não aceder ao pedido.
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