quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Jogo psicológico

Com dezoito meses de idade, o Gabriel ainda não fala. Diz “mamã” e “papá”, mas não sabe exactamente o significado dessas palavras. Prova disso é que aponta para o gato e diz “mamã”.

O Gabriel não necessita de falar para pedir o que quer. Também não o necessita para exigir. Quando tem sede agita um copo nas mãos, quando tem fome tenta subir para a cadeira onde sempre come e quando necessita de muda de fralda aponta para a barriga. Se não acedemos de imediato à vontade assim expressa, chora, grita, amua e geme longamente, por esta ordem exacta.

O Gabriel comeu sempre de tudo: bom hábito que a mãe lhe incutiu desde os primeiros meses. Carne, peixe, legumes, fruta, sopa e doces. Quando estamos a cozinhar, sobre para um banco e desde a bancada agarra a cebola já descascada e cheira-a. O Gabriel cheira sempre uma comida estranha antes de a provar. Dá-lhe uma mordida, e faz uma cara de desagrado extremo, seguida de um par de lágrimas. Dá outra mordida à cebola e parece já aguentar melhor o sabor. Fez assim da primeira vez que viu uma cebola crua, e desde então que também a come com frequência.

Dezoito meses são toda uma vida de desenvolvimento à escala dum bebé, e o Gabriel descobriu que há certas comidas que lhe dão maior prazer imediato: iogurtes, doces, gelatinas e coisas afins. Mais que isso, aprendeu por observação que todas essas guloseimas se guardam habitualmente no frigorífico.

Aos dezoito meses, o Gabriel que tão bom comer tinha, cresceu e deixou de comer a sopa e as verduras para as trocar por iogurtes e doces. Não é uma troca imediata, que ele sabe que os pais nunca aceitariam tal negociação. Com uns três palmos de altura, o Gabriel já sabe fingir que não tem fome durante duas horas, até que a insistência dos pais para que coma se converta em preocupação. E no momento em que já aceitámos que deve estar doente, “coitadinho”, o Gabriel implanta-se em frente do frigorífico, com uma das mãos apoiada na porta. Espera apenas o efeito final do jogo psicológico: “deixa-me dar-lhe um iogurte, porque não comeu nada”.

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