quinta-feira, 19 de maio de 2011

A depressão do divã

Antes o Nautilus passava pouco tempo em casa. Ao fim do dia miava para entrar, mas poucos minutos eram suficientes para comer e pedir para sair novamente. Passava as quentes noites de verão a vaguear por entre os vinhedos, e rebolava na neve durante o inverno. De manhã voltava a miar à porta de casa, para nova refeição e nova partida para dominar a aldeia. Mesmo quando era ameaçado pelo tenebroso gato negro, não era no nosso calor que se vinha esconder: fugia a bom fugir rua fora, que a liberdade tem um preço, mas antes pagá-lo que a não ter.

Hoje, apenas algumas semanas depois, passa o dia acocorado na depressão causada pela união das almofadas do sofá. Uma depressão que parece não ser apenas do divã mas também do gato, agora que já não parece interessar-se pelo mundo lá fora.

Na primeira noite nestas paragens pediu para sair. Depois para entrar. De novo para ir para a rua, e outra vez para voltar para casa. Parecia que a porta não lhe entregava o mundo prometido de antes, mas de tanto o querer, continuava a insistir. Teremos aberto a porta umas dez vezes nessa noite, antes do Nautilus se render à depressão da junção das almofadas.

Olho para o sofá e imagino o Nautilus no meio dos vinhedos, a arranhar o vidro para entrar, a miar para sair, a atravessar o jardim feito foguete à frente do mauzão da aldeia. E ao ver e rever essas imagens reparo numa zona amarelada ao fundo de cada uma delas, sempre presente. Uma mancha com bigodes, o gato do vizinho.

O Nautilus tem saudades do seu melhor amigo, o gato amarelo!

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