sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Gabriel e a consciência da desordem

O Gabriel ainda não fala. Duvido que compreenda o significado das palavras que lhe dizemos. No entanto parece perceber quando é que está a ter uma atitude incorrecta, porque olha-nos fixamente enquanto desenvolve a malfeitoria devagarinho.

Ilustremos a descrição com um exemplo. Por alguma desconhecida razão, o Gabriel gosta de desligar as fichas das tomadas. Não é como outros bebés suicidas que tentam pôr os dedos nos buraquinhos carregados de electricidade. O que ele adora é puxar o cabo e agitá-lo no ar ao jeito de um cobói. Já por vezes inúmeras lhe dissemos que não é coisa que se faça, mas a tentação parece ser irresistível.

Às vezes a tentação faz das suas quando estamos com olho atento às feitorias do Gabriel. Ele sabe-se observado, e olha-nos com ar de interrogação, como que a pedir licença para puxar o cabo. Como quem cala consente, estica a mão à tarefa.

“Gabriel, não desligues o cabo”. Recolhe a mão e olha-nos fixamente. E é neste instante que, sem deixar de nos olhar, desliza a mão muito devagarinho em direcção ao fio preto, até quase tocá-lo. Tem a maldade estampada no rosto, e temos a certeza que sabe que está a fazer algo que não devia. O que não sabemos é se isso é devido às nossas expressões condenadoras ou a algum sentido de bem e mal inato ao ser humano. Nunca lhe damos nenhum castigo físico, e a condenação é sempre verbal, com um volume de voz normal, sem gritar. Será que aos onze meses já identifica as nossas expressões faciais ou será que já consegue identificar uma ordem nas coisas, que a sua acção maléfica desordena? E será a consciência dessa desordem aquilo que lhe dará prazer?

De uma forma ou de outra, temos de repetir a proibição para que não desligue nada. E é quando começa a puxar a camisola, de forma a manter as mãos entretidas e a aguentar essa vontade de puxar qualquer coisa.

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