domingo, 31 de outubro de 2010

O corpo aprende a ser pai

Como é hábito de um bebé, o Gabriel acorda a casa toda nunca depois das sete e meia da manhã. O Nautilus escapa à alvorada quando passa as noites suaves de verão na varanda do vizinho, mas agora que o vento arranca as folhas das parreiras, é vê-lo arrastar-se pela casa mal disposto desde o nascer do sol.

Era Sábado e a minha esposa levantou-se para dar o pequeno-almoço ao garoto. A preguiça eliminou em mim qualquer sentimento de solidariedade e entreguei-me ao prazer egoísta de dormitar até mais tarde, enquanto deixava que ela tratasse do miúdo.

Não me lembro de mais nada até estar de pé na sala, a ouvir a minha esposa num lamento descontrolado. Só nesse momento me apercebi que me tinha levantado da cama e corrido para a sala duma forma automática, inconsciente, sem reflexão prévia, em resposta aos gritos do meu filho.

No fim de contas não tinha sido nada de grave: o Gabriel tinha caído sofá abaixo, mas para além do “galo” que lhe começava a espreitar na nuca, estava de perfeita saúde. O que me impressionou profundamente foi a forma como o meu corpo reagiu. Talvez absorvemos no subconsciente o facto de que os nossos filhos são indefesos a esta idade, e que dependem inteiramente de nós. Acho que o nosso corpo “aprende” esse facto e reage sem necessidade de uma atitude deliberada.

Nunca tinha vivido nada assim!

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