sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Caminha. Porquê gatinhar?

Sempre que proponho alguma solução mais arrojada, é normal que me respondam com a lenga-lenga habitual de que “há que aprender a gatinhar antes de conseguir andar”.

Aos seus seis meses, o Gabriel não mostra qualquer interesse em gatinhar. Insiste em que o apoiemos para que se ponha de pé, e prefere passar um bom bocado em esforço para manter-se assim, do que render-se ao conforto de estar de gatas.

Como pais, o nosso primeiro sentimento foi de estranheza, e depois de preocupação. “Já devia estar a tentar gatinhar”, “e se não aprender a gatinhar?”, “ouvi falar num truque com uma toalha para o fazer gatinhar”...

Felizmente houve silêncio. Deu-se um pequeno vazio que nos fez ver a realidade de longe: estamos preocupados porque estamos perante algo fora da regra geral. Ou do que nós achamos que é a regra geral. E preocupamo-nos, ficamos desconfortáveis. E para eliminar o nosso desconforto (não necessariamente o do Gabriel) instintivamente procuramos a forma de caminhar de encontro à norma. Lembrei-me da escola, e do quanto éramos forçados a uma norma, uma regra de um “dever ser”, de como nos incitavam a estudar atrás de boas notas. Não atrás de conhecimento, de descoberta ou de ultrapassar as nossas limitações. Essa era (e é) a norma. Para acabar por construir uma sociedade desprovida de auto-iniciativa, de indivíduos que não sabem lidar com o incerto e que são incapazes de escolher. Criamos uma sociedade dependente.

Felizmente decidimos continuar apoiar o Gabriel a pôr-se de pé. Nada de toalhas.

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